persNamer 1.2: um número VIAF, nove ficheiros de autoridade

7 de setembro de 2026·
Clément Godbarge
Clément Godbarge
· 3 minutos de leitura
post Humanidades digitais

O persNamer nasceu como uma simples comodidade: dava-se-lhe um número VIAF e ele devolvia uma entrada <person> em TEI, com a etiqueta <persName> para anotar o texto. Nada mais – e a entrada era magra: um nome, duas datas, um identificador. A versão 1.2, publicada hoje, continua a fazer uma coisa só – mas a entrada passou a merecer ficar no ficheiro.

O que contém agora uma entrada de pessoa

Comecemos pelo nome. Num cluster VIAF, cada biblioteca participante traz a sua forma, e o persNamer de antigamente contentava-se com a primeira que lhe aparecia. Pedia-se-lhe Voltaire e a resposta era « فولتير، »: a forma árabe, com vírgula final e tudo, e ainda por cima um xml:id vazio. Agora a ferramenta faz a contagem das formas em todo o cluster e fica com aquela em que os registos de origem estão de acordo; as restantes seguem atrás como <persName type="variant">, as mais frequentes primeiro. As datas são normalizadas (1572-08-00 passa a 1572-08) e escritas duas vezes, em texto e num atributo @when – que é o que qualquer tratamento do ficheiro sensível a datas irá realmente ler. Sexo e descrições vêm também, sempre que o VIAF os disponibilize.

E depois há a parte de que eu mais sentia falta. Todos os identificadores que o VIAF associa à pessoa, por schema:sameAs ou pelos seus próprios identificadores de origem, ficam registados cada um no seu <idno>: BnF, GND, Library of Congress, SUDOC, Wikidata, ISNI, BNE, LIBRIS, NDL. Entra um número, saem nove catálogos. Para uma personografia, é toda a diferença entre uma lista de nomes e um nó na teia dos dados de autoridade.

<person xml:id="pers-teligny-c">
  <persName>Charles de Téligny</persName>
  <birth when="1535">1535</birth>
  <death when="1572-08-24">1572-08-24</death>
  <sex value="M">M</sex>
  <idno type="VIAF">314802260</idno>
  <idno type="BNF">16133360</idno>
  <idno type="Wikidata">Q1868249</idno>
  <idno type="ISNI">0000000071126808</idno>
</person>

Dos retalhos à personografia

Imprimir XML no terminal chega bem para uma pessoa; uma edição tem centenas. Por isso o persNamer aceita agora vários números VIAF de uma só vez, dá ao VIAF, por cortesia, um momento de descanso entre pedidos, guarda em cache o que já descarregou e, com --merge, insere as entradas novas diretamente no <listPerson> de um ficheiro TEI existente. Os registos que já lá estavam são reconhecidos pelo número VIAF e conservam o seu xml:id; os identificadores novos são confrontados com o ficheiro e, se coincidirem com algum, recebem um sufixo (-2, -3); no fim, o ficheiro é reindentado – não sem antes se ter posto de lado uma cópia .bak.

persnamer --merge edition.xml 314802260 36925746

Uma alteração a ter em conta: por omissão, a partícula do apelido deixou de entrar no identificador, pelo que Charles de Téligny passa a ser pers-teligny-c, e já não pers-deteligny-c. Se o projeto se habituou à forma antiga, --keep-particle repõe-na; e quem preferir não depender dos nomes tem --id-format viaf, que dá pers-viaf-314802260.

Arrumações

O script passou a ser um pacote, com o seu comando persnamer: instala-se numa linha (uv tool install ou pipx) ou corre-se uma vez, sem instalar nada, com uvx. Vinte e seis testes verificam-no sobre respostas VIAF gravadas – sem precisar de rede – e a integração contínua repete-os do Python 3.9 ao 3.13; o resultado é validado contra a TEI P5. Licença Apache 2.0, como até aqui.

O que continua a não saber é onde alguém nasceu nem o que fazia na vida: o RDF dos clusters do VIAF não diz nada sobre lugares nem sobre ofícios. Os registos ligados da BnF e da GND, esses, sabem – e agora já tem os números deles.

Código e documentação no GitHub.

Clément Godbarge
Authors
Professor de Humanidades Digitais
Clément Godbarge é professor de Humanidades Digitais na Universidade de St Andrews. A sua investigação incide sobre a ciência e a arte de governar na Europa do início da Idade Moderna. No livro que tem no prelo, examina o modo como médicos ligados às cortes de França e de Itália no século XVI se afirmaram como peritos políticos de um novo género. A sua investigação tem contado com o apoio da Andrew W. Mellon Foundation, da Comissão Fulbright, da Renaissance Society of America e da Universidade de Harvard.