Velhos hábitos, ferramentas novas
Um tecelão num tear Jacquard, com a cadeia de cartões perfurados que programa o padrão. Fotografia: IEEE SpectrumOs humanistas do início da Idade Moderna que adotaram a imprensa deram à edição a forma que ela conserva até hoje: estabelece-se o texto, compõe-se, publica-se de uma vez por todas e, quando muito, corrige-se numa segunda edição, anos mais tarde. Há meio século que temos computadores e continuamos a fazer edições digitais como se fossem livros impressos: acaba-se o texto, publica-se tudo de uma assentada e as erratas ficam para depois. As ferramentas são novas; os hábitos, nem por isso.
A minha nova lição para o Programming Historian en français, “L’édition critique en continu : publier au rythme de l’encodage (Partie 1)”, toma as ferramentas novas à letra. Se a codificação TEI é código — e é —, então pode ser versionada, validada e transformada como qualquer código. Há muito que os programadores deixaram de esperar pelo produto acabado: cada alteração é verificada automaticamente e lançada mal passa nos testes. Nada impede uma edição crítica de funcionar da mesma maneira, publicando cada carta logo que esteja codificada e revista, e corrigindo-a à vista de todos sempre que surja uma leitura melhor.
Primeira parte: os alicerces
Esta primeira parte apresenta as peças que libertam o editor do fluxo de trabalho herdado, todas elas de código aberto:
- um ODD, o documento único que especifica a codificação do projeto;
- um esquema RELAX NG gerado a partir dele, que impõe a estrutura;
- regras Schematron, que acrescentam as restrições editoriais que nenhum esquema consegue exprimir;
- um script de validação, que verifica o corpus inteiro com um só comando e produz, através de XSLT, resultados legíveis.
Os exemplos vêm da correspondência de Filippo Cavriana, a edição que estou a construir segundo estes princípios. A segunda parte acrescentará a cadeia que liga estas peças entre si, de modo que cada alteração ao corpus seja validada e publicada no próprio momento em que é feita. A lição insere-se no meu projeto Edição eficiente, que procura maneiras de baratear as edições críticas; automatizar a publicação, para que o editor deixe de ficar à espera de um especialista no fim da cadeia, é uma das maiores poupanças ao nosso alcance.
Indignação, negação ou adesão de fachada
A receção da inteligência artificial segue o mesmo padrão: indignação, negação ou adesão de fachada. É uma das razões por que gosto das humanidades digitais: poucos campos exibem o paradoxo com tanta nitidez. As ferramentas novas deviam ser um convite a repensar a maneira de trabalharmos melhor, e não uma demão de tinta sobre velhas rotinas. Esta lição aceita o convite no terreno da edição crítica. Fiquem atentos à segunda parte.
Agradeço aos editores da lição, Daphné Mathelier e Matthias Gille Levenson, aos avaliadores, Jasmin Macarios e Elsa Van Kote, e a Anisa Hawes.
A lição está em acesso aberto: programminghistorian.org/fr/lecons/edition-critique-continu-pt1 (DOI: 10.46430/phfr0044).
