Caros editores: se querem a minha voz, devolvam-me a minha língua
«La Tour de Babel», Alix – © Éditions Casterman S.A./Jacques Martin, via BnF EssentielsMais um dia, mais uma revista a apregoar a sua política de IA. Desta vez é a Progress in Human Geography, cujos editores publicaram uma declaração de princípios a avisar que usar a IA como substituto da própria leitura, do próprio pensamento e da própria escrita é «uma violação da ética académica equiparável ao plágio». Os artigos apanhados em falta «poderão ser retirados»; na melhor das hipóteses, serão corrigidos, com um aviso impresso na revista. Os autores, acrescentam os editores, deveriam «ponderar com cuidado se desejam ver o seu nome associado a retiradas e a avisos de correção».
Detenhamo-nos nesta frase. A retratação é a sanção suprema da publicação académica, a pena que normalmente se reserva à fabricação de dados e à fraude. Aqui aparece ligada a uma falta que o mesmo editorial não consegue definir. Há, concedem os editores, «verdadeiras zonas cinzentas» e «nenhuma linha clara a demarcar a zona de “irresponsabilidade”». A aplicação assentará em «juízos discricionários que poderão desagradar a alguns autores, os quais alegarão não ter feito uso indevido da IA»: a declaração de cada um, por outras palavras, poderá ser desconsiderada. Segue-se o conselho de permanecer «em segurança na zona de “responsabilidade”»; ora, só se recomenda segurança onde há perigo. Punir pessoas por transporem uma linha que se confessa não saber traçar só faz sentido se o objetivo for governar pelo medo. Não percam isto de vista.
O pretexto da voz
Como se reconhece um uso responsável? Diz-se aos autores que «é preciso o maior cuidado… para conservar a sua própria voz». O abuso consiste em recorrer à IA «para escrever numa língua que os autores nunca empregariam normalmente por si mesmos». Para um falante nativo, faz sentido: não finjas ser o que não és. Mas, para o estrangeiro obrigado a escrever numa língua que não é a sua, a injunção contradiz-se a si própria. A voz que a política protege é justamente aquilo que as regras da própria revista nos negam.
Tomem-me como cobaia. O inglês é a minha quarta língua, exatamente o género de língua que eu nunca empregaria «normalmente». As universidades anglófonas treinaram-me a escrevê-lo curto, sinalizado, quase mecânico: a frase-tópico à cabeça do parágrafo, as cautelas nos sítios aprovados, as transições tiradas da lista aprovada. O treino resultou: nunca houve no meu inglês uma voz a proteger; foi a primeira coisa que teve de ir. Pela definição dos próprios editores, tudo o que escrevi em inglês seria uso indevido, com ou sem máquina.
Entre a espada e a parede
Os editores dizem ter pensado em nós: a política reconhece que os falantes não nativos beneficiam de ter o seu inglês verificado pela IA, e até dos seus «serviços de tradução, escrita e revisão». No entanto, a participação da IA na escrita «não deve exceder, no máximo, uma ajuda à revisão e à correção de provas», e tem de ficar aquém de «grandes blocos de texto escritos por IA». Ora, um artigo traduzido por máquina é escrito por IA da primeira palavra à última; não é feito senão de tais blocos. A concessão só se sustenta, portanto, se traduzir não for escrever. Por onde passa essa linha? Já no-lo disseram: «nenhuma linha clara».
Há pior, porque a suspeita não é apenas infalsificável. É viciada. Em 2023, uma equipa de Stanford testou sete detetores de IA de uso corrente em ensaios escritos por humanos: os detetores sinalizaram como gerados por máquina, em média, 61 % dos ensaios do TOEFL redigidos por falantes não nativos, ao passo que classificavam quase na perfeição os dos falantes nativos; um dos detetores condenou 97,8 % do lote do TOEFL (Liang et al., 2023). A razão é instrutiva. Os detetores medem a previsibilidade, e o inglês de segunda língua, treinado para a média, é previsível por construção: a palavra mais provável na ordem mais provável. O mesmo estudo encontrou o sinal na produção científica propriamente dita, com menor variabilidade linguística nas comunicações de congresso cujo primeiro autor não é falante nativo. Os indícios de estilo que se leem como «IA» são os indícios de um inglês de segunda língua competente, e o juízo humano lê os mesmos indícios que a máquina. A armadilha fecha-se: escrevo o meu próprio inglês e pareço uma máquina; uso a máquina e violo a regra deles.
O imposto sobre a língua
O paradoxo seria inofensivo se não viesse acompanhado de ameaças. Ora, as ameaças revelam um problema mais fundo e mais antigo, que a política nunca nomeia: o monolinguismo. As instruções para autores pedem «a mais ampla cobertura internacional possível» enquanto, na mesma página, «a língua da revista é o inglês».
O custo desse arranjo não é hipotético. Inquirindo 908 cientistas do ambiente, Amano e colegas apuraram que os falantes não nativos de inglês gastam até 51 % mais tempo a escrever um artigo, veem-no rejeitado 2,5 vezes mais e são mandados revê-lo 12,5 vezes mais, apenas por motivos de língua (Amano et al., 2023). Esse imposto é cobrado antes de qualquer política de IA chegar; o formulário de declaração e as suas ameaças são uma auditoria que lhe vem acrescentar-se.
Fin d’empire
O monolinguismo é o axioma que ninguém discute. É uma herança imperial que adquiriu, com o tempo, uma justificação prática: a tradução era lenta e cara, e nenhum conselho editorial podia avaliar o que não conseguia ler. Ora, nada disto sobrevive aos progressos da tradução automática. A tradução automática de última geração pode servir de camada fiável entre autores e editores.
A saída ideal é humana: os investigadores deviam ler mais do que uma língua. Em vez disso, as universidades anglófonas preferem fechar os departamentos de línguas modernas. Note-se que os encerramentos são um fenómeno anglo-americano: noutras paragens, os investigadores nunca tiveram o luxo do monolinguismo. E note-se o momento. Fechar um departamento de línguas é fazer uma aposta: a de que o inglês venceu de vez e de que nunca mais se escreverá noutra língua nada que valha a pena ler. Essa aposta faz-se precisamente na pior altura, e por partida dobrada. Primeiro, porque a tradução automática torna possível, pela primeira vez, dispensar de todo uma língua franca; segundo, porque a ordem que fez do inglês a língua por defeito está em refluxo: a anglosfera fecha-se sobre si mesma, a globalização recua, o comércio livre é contestado nos seus próprios berços, e desenha-se um mundo multipolar em que as línguas que vale a pena ler se multiplicarão. As universidades formam investigadores que só leem inglês para um mundo em que o inglês não bastará. Os conselhos editoriais serão os primeiros a herdar essa perda.
Uma prova para os editores
Quando um conselho editorial se lamenta de não conseguir ler a voz própria dos seus autores, talvez parte do problema esteja no próprio conselho.
É uma acusação séria, e vem acompanhada de uma prova séria. Aceitaria a Progress in Human Geography submeter a arbitragem um artigo escrito em francês, italiano ou japonês, acompanhado de uma versão inglesa traduzida automaticamente? As próprias instruções da revista reconhecem os serviços «de tradução» que o tornam possível. Um sim põe fim ao problema. Um não dir-nos-ia o que a política protege na realidade.
Seja como for, a escolha cabe aos editores. Se a voz importa, como afirmam, a revista deve aceitar artigos nas línguas em que os autores pensam. Se não importa, que desapareça o formulário de declaração, e as ameaças com ele.
